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É possível viver de renda só com ETFs?

Esse é um tema pouco falado por quem compara investimentos por ETFs com investir escolhendo ações individuais.

O senso comum sobre investimentos tem a ideia equivocada de que ações e ativos que distribuem dividendos são por si só melhores e mais seguros do que ativos que não distribuem lucro.

Dividendos não são renda extra

Vou utilizar um exemplo prático: Um empresário é dono de um mercadinho. Vamos supor que todo o patrimônio desse comércio chegue ao valor de 80 mil reais, e no caixa da empresa há 20 mil reais, totalizando 100 mil reais de valor para a empresa.

Se o dono do mercado retirar 10 mil do caixa como distribuição de lucros da empresa, o comércio vale agora 90 mil reais caso ele decida vender, mas ele, como sócio, continua tendo 100 mil reais de patrimônio.

Com as ações não é diferente, se uma empresa tem ações na bolsa de valores no preço de 7 reais, e ela distribuir dividendos de 1 real, você receberá 1 real e a ação passa a valer 6 reais.

Parece que você está no prejuízo pois as ações caíram, mas na verdade você continua tendo o mesmo patrimônio de 7 reais por ação daquela empresa, aqui não foi gerada nenhuma riqueza adicional.

Dividendos não são renda extra, eles são uma parte da empresa que é vendida e cai automaticamente na sua conta. Você pode reinvestir esses dividendos, ou vender parte dessa valorização como acontece nos ETFs, o resultado é o mesmo.

Não faz diferença se a renda passiva vem dos dividendos, ou vem da valorização. O que importa é o retorno total dos investimentos: Os dividendos mais a valorização do ativo, no final a conta dá na mesma.

Como viver de renda com ETFs

Então vamos colocar essa lógica para uma carteira de ações de 1 milhão de reais: Vamos supor que essas ações gerem 10% de rentabilidade ao ano, e distribuam em torno de 5% aos acionistas.

Você terá no final de 1 ano 1,1 milhão de reais em patrimônio, desse patrimônio, você recebeu 55 mil de dividendos no ano, e ficou com saldo investido de 1 milhão e 45 mil reais. Você teve uma renda passiva de aproximadamente 4583 reais/mês.

Entendido que os dividendos não saem de graça, que não é um dinheiro que você ganhou, é apenas uma distribuição de lucros, mas o patrimônio final é o mesmo. Agora vou dar um exemplo de como acontece com os ETFs.

Se você tem os mesmos 1 milhão de reais investidos num ETF de índice que não paga dividendos, mas sim reinveste esse valor comprando mais cotas do índice, e ele tem rentabilidade de 10% a.a., chegamos nas seguintes contas:

Você terá ao final de 1 ano 1,1 milhão de reais, e não recebeu nada de dividendos, logo a única forma de você gerar renda passiva com esse investimento é se vender 5% das suas cotas, a chamada taxa de retirada. Aí sim você terá 55 mil de renda passiva no ano, e um patrimônio de 1 milhão e 45 mil reais.

Veja que o seu patrimônio cresceu mesmo com você fazendo retirada de 5% no ano, o que significa que no próximo ano esse patrimônio investido vai gerar uma renda passiva ainda maior do que a desse ano. Logo você terá cada vez mais dinheiro sobrando para poder viver de renda, da mesma forma que ocorre com os dividendos de ações.

Olha que bacana, tanto o patrimônio quanto o valor que pode gastar por mês continuam crescendo ao longo do tempo, mesmo realizando a venda de 5%. Isso demonstra que a distribuição de dividendos das ações ao longo do ano não reflete necessariamente que ela é uma forma melhor de viver de renda do que ETFs.

A fórmula para viver de renda passiva

O que gera renda passiva é o patrimônio que você possui, não a forma que ele está investido, seja em ações pagadoras de dividendos ou ETFs de acumulação.

Até porque não podemos esquecer da fórmula básica para viver de renda passiva sem corroer seu poder de compra. O cálculo da renda passiva é o mesmo, independentemente de você ter feito seu planejamento por ETFs ou por ações da bolsa:

Renda Passiva = Patrimônio Líquido Total (após retirar inflação e IR) * Retorno acima da inflação, nesse caso de 5%.

Não devemos usufruir de todos os dividendos recebidos, uma parte fica como reposição do patrimônio que sofreu desvalorização da moeda pela inflação.

Como vender ETFs para gerar renda

Obviamente, temos dois detalhes aqui para que você preste atenção: O primeiro é que tudo gira em torno da venda de uma parte dos seus ETFs, que é a taxa de resgate de 5% do patrimônio, só que é preciso fazer isso da forma correta, comprando na baixa e vendendo na alta.

Isso só é possível para quem vende ativos da carteira de acordo com a sua estratégia de realocação de ativos. Ou seja, você vende aquilo que está em alta na sua carteira, ativos acima do percentual com o objetivo de balancear cada classe de ativos para a composição ideal dentro da carteira.

Essa estratégia de diversificação e balanceamento da sua carteira na hora da venda é muito mais fácil de fazer por ETFs do que se tiver 10 fundos imobiliários e 10 ações da bolsa, mais um bocado de ativos de renda fixa.

Ela sozinha já faz com que você sempre venda na alta, evitando o erro de comprar na alta e vender na baixa, que o investidor médio comete por não saber acompanhar os ciclos de mercado.

O segundo detalhe muito importante no Brasil é que os dividendos de ações brasileiras são isentos para os peixes pequenos. Pessoas que recebem até 50 mil de dividendos por mês de uma empresa ou menos de 600 mil reais por ano, ainda não são tributadas pelo Estado.

Enquanto que todo lucro gerado por ETFs é tributado no Brasil em 15%. Existe essa vantagem tributária para quem escolhe as ações individualmente no Brasil. Portanto, para que o investimento por ETFs faça sentido, ele precisa ter uma rentabilidade acima do stock picking.

ETFs podem superar o stock picking?

É aí que entra um ponto que já falei nesse artigo, estudos mostram que, no Brasil, 80% dos gestores de fundos de investimentos perdem para o índice de referência. Nos EUA, esse número é ainda maior: estamos falando de 90% dos fundos de investimento que perdem para o índice da bolsa.

Então para o exemplo que dei acima de investir 1 milhão de reais, no caso dos ETFs, a tendência é que você consiga um retorno anual acima de 10%, vamos supor algo em 14% ao ano. Com isso, os ETFs conseguem aumentar seu patrimônio da mesma forma que o stock picking, além de também gerar renda passiva.

A única diferença é que você paga imposto de renda e precisa retirar o valor anual de uma vez, ao invés de receber ao longo do ano como acontece com os dividendos das ações.

Por que preferimos receber dividendos?

E, na cabeça do investidor, receber dividendos soa como uma vitória, que você ganhou, fez o certo e o dinheiro vem de graça ao mesmo tempo que você preserva seu patrimônio.

Enquanto que ao precisar vender parte do seu patrimônio, como 5% por exemplo, você tem a sensação que está investindo da forma errada, que não é para vender suas cotas de ETFs.

Temos esse sentimento sobre duas coisas que geram o mesmo resultado, que chegam no mesmo objetivo porque é muito fácil você apenas olhar para o dividendo que pinga na sua conta.

O problema de viver de todos os dividendos

Essa dopamina e essa euforia de ver dinheiro surgir na sua conta são viciantes, por isso que muita gente vende essa ideia de viver de dividendos. Mas na minha opinião essa prática chega até a ser irresponsável porque o jeito certo de você usar esses dividendos, sem perder poder de compra, exige medir, calcular, reinvestir uma certa quantidade desses dividendos que recebe.

Essa parte da fórmula da renda passiva pouca gente explica e a maioria ignora. A maior parte dos investidores não sabe do problema de viver de 100% dos seus dividendos, que é literalmente seguir o livro que ficou famoso chamado: “Morra sem nada“.

Aqui você vai corroendo seu poder de compra conforme usa toda a rentabilidade para se pagar e não reinvestir parte do que a inflação corrói todos os anos.

É possível viver de renda com ETFs?

Com isso, podemos concluir que é possível viver de renda com ETFs de acumulação, sim, e eles podem ser melhores do que escolher ações a dedo, além de estatisticamente você ter uma rentabilidade maior no longo prazo.

É muito mais simples na hora de você investir todos os meses ao longo de anos, tanto na sua fase de investimento quanto na sua fase de usufruto, quando estiver aposentado.

Quando você descobrir que vender uma parte dos ETFs é igual a receber dividendos, você vai mudar sua mentalidade e entender que a construção de patrimônio pode ser feita de várias formas, e os ETFs funcionam tão bem quanto o stock picking.

Eu prefiro ganhar uma rentabilidade maior mesmo pagando impostos, do que gastar mais tempo escolhendo uma ação por vez para ganhar menos, mesmo sendo isento de impostos.

E se quiser se aprofundar ainda mais no tema de renda passiva, tem esse artigo excelente já publicado no meu blog:

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