Ter um carro depende da sua realidade
Primeiro de tudo, quero deixar claro que ter carro vai além do fato dele ser um gasto. Não existe gasto ruim, gasto errado, você pode ter qualquer coisa que quiser na sua vida desde que tenha condições para ter isso.
Isso é muito importante frisar porque ter um carro é um bem que a decisão de compra também é influenciada pela sua realidade no Brasil. Vou te explicar esse conceito agora:
Para uma pessoa que mora a poucos minutos do metrô, trabalha de casa e praticamente não precisa se deslocar durante a semana porque o bairro que mora tem tudo perto a pé para comprar. Essa pessoa pode não precisar de um carro, ela pode simplesmente fazer as coisas a pé, de metrô ou de aplicativo de táxi.
Agora, imagine uma pessoa que vive numa região mais afastada do centro da cidade, que é mal atendida por bons empregos, bairros com pouca infraestrutura e falta transporte público de qualidade, que é a realidade de quem depende de ônibus.
Ou uma região violenta, que tem má iluminação pública, alta quantidade de assaltos etc, você precisa de um carro até mesmo para ir ao metrô.
Eu posso estar comparando a necessidade de ter um carro ou não de pessoas que tem a mesma renda familiar, e concluir que para uma não é tão necessário assim nesse momento da vida, e para a outra é meio que uma obrigação ter carro para ter o mínimo de qualidade de vida na cidade.
Fiz essa comparação para dizer que a compra de um carro também baseia-se no que ele pode fazer para a pessoa. E ao colocar os dois pesos na mesa, podemos ter duas medidas diferentes, ou seja, o que funciona para uma pessoa pode não funcionar para a segunda.
O carro pode trazer benefícios além do transporte
Portanto, ter um carro pode ser uma decisão correta tanto para a pessoa que nem precisa tanto dele nesse momento, mas quer ter mais liberdade para fazer as coisas, sem depender de ir de metrô ou chamar um Uber. Quanto para a pessoa que precisa mais do carro nesse momento porque permite que ela compre tempo para sua família.
De fato, um carro pode reduzir tempo de deslocamento, pode ampliar acesso a emprego, pode permitir que você trabalhe em regiões antes inacessíveis, pode facilitar cuidado com filhos, familiares ou pessoas que precisam de cuidados especiais.
O carro pode aumentar o conforto, a segurança, a previsibilidade e, no pior dos casos, ainda que seja um passivo que perde valor ao longo do tempo, ele ainda é um bem que pode ser vendido caso você precise desse dinheiro.
Eu fiz toda essa introdução para dizer que minha comparação a seguir não está ignorando a parte econômica da decisão de comprar um carro, não estou olhando apenas para o preço e depreciação que ele terá porque há muitos benefícios ao se ter um carro próprio, tanto pessoais quanto profissionais.
Em resumo, as pessoas valorizam consumo, tempo, conforto, segurança, família, experiência, status e uma quantidade enorme de outras coisas. O importante é você não adquirir gastos incompatíveis com a sua renda, gastos que comprometam mais de 30% da sua renda anual, e um carro pode ultrapassar essa porcentagem facilmente.
Você não pode confundir a utilidade de ter um carro com a dependência financeira para mantê-lo. Aqui está o grande erro que a maioria das pessoas comete ao comprar um carro: elas olham apenas se a parcela cabe no bolso e não veem que gastam muito caro para manter esse passivo.
Nenhuma compra é racional só porque a pessoa decide fazê-la. As pessoas erram o tempo inteiro na compra de um carro porque elas prestam muita atenção no fluxo de pagamento das parcelas do carro.
Mas ignoram os juros do financiamento, que podem dobrar o valor da dívida, além das manutenções previstas e da troca de componentes, IPVA, licenciamento, seguro, combustível, estacionamento, lava-rápido, multas, pedágios etc.
Como comprar um carro de acordo com a sua renda
A ideia não é se privar de gastos no presente enquanto sua renda é baixa, mas sim de adequar o carro que você compra de acordo com sua renda. Dessa forma, você cresce ao ponto de poder comprar um carro com planejamento, sem colocar essa decisão à frente da sua reserva de emergência e dentro das suas condições.
Comprometer de cara 20 mil ao ano para manter um carro, que equivale a gastar um salário mínimo por mês, quando você vive com 2 salários mínimos não deveria ser uma decisão racional, mas é o que as pessoas fazem no Brasil por não ter a educação financeira de entender que quem determina seus gastos é sua renda.
Comece comprando um carro barato de 12 mil, 15 mil reais, que irá comprometer pouco da sua renda mensal, e depois que melhorar sua renda, você pode fazer upgrade para um carro melhor, e assim vai. Essa é a forma correta de comprar um carro: fazer as contas e ver qual carro se encaixa na minha renda atual.
Se você aumenta a renda você pode andar mais um degrau, comprar bens melhores, desde que você não aumente seus gastos conforme ganha mais porque vai acabar no mesmo erro de antes, de ser possuído pelos bens que adquire e pagando mais caro do que pode para mantê-los.
Mais vale você postergar um consumo presente por um consumo futuro, do que trocar tempo por dinheiro da forma errada. Trata-se de não trocar seu tempo de vida para ganhar um salário que não fecha as contas do mês.
A renda deve determinar o seu padrão de vida
Em outras palavras, o problema não é ter um carro. O problema é ter um carro que você não consegue sustentar porque vive no padrão de vida errado, onde você definiu quanto você pode gastar no seu orçamento familiar pelos seus gastos no mês e não pela sua renda mensal.
Por isso que o brasileiro vive no crédito, por ter esse pensamento de ganhar dinheiro, gastar tudo para pagar dívidas e ter de trabalhar novamente 30 dias para pagar as mesmas contas no próximo mês. E na primeira dificuldade que aparece acaba por sujar o nome porque vai ter que pedir mais crédito no banco.
A mensagem final que você sempre deve guardar é: sua renda determina seus gastos, ou seja, quanto você ganha por mês determina quanto pode gastar. Aí você compra o carro e a casa no seu nome que cabe dentro do seu orçamento, e depois que sua renda aumentar, você pode melhorar seus bens de consumo um pouco, mas sem cair no erro de viver acima das suas possibilidades.


Deixe um comentário